Boas, parceiros da estrada! Quem anda nisto há uns anos sabe que há viagens que correm sobre rodas e outras que se transformam num filme de terror. A diferença, muitas vezes, está no trabalho de casa feito antes de metermos a primeira e largarmos o travão de mão. Planear a rota não é mania de quem tem tempo a mais, é a ferramenta mais preciosa que temos na cabina. Num país com centros históricos cada vez mais apertados, pontes com décadas em cima e uma teia de restrições que parece crescer de um dia para o outro, sair à sorte é pedir para ter problemas.
A verdadeira perícia de um profissional do volante não se mede só na forma como domina a máquina no alcatrão, mas também na preparação que faz na tranquilidade do parque ou no escritório da empresa. É esse tempo que nos permite antecipar e fintar os obstáculos. Falamos de pontes baixas que podem arrancar o tejadilho do reboque, limites de peso que transformam uma pacata estrada municipal numa armadilha legal e zonas ambientais que nos presenteiam com multas capazes de estragar o mês. O nosso trabalho começa muito antes de o tacógrafo começar a contar.
A tecnologia ajuda, mas não pensa por nós
Hoje em dia, quase todos nós temos um GPS a ditar o caminho. Mas atenção, malta: há uma diferença do dia para a noite entre o GPS de um carro ligeiro e um sistema a sério, feito para pesados. Usar uma aplicação de telemóvel genérica ou o GPS do carro do patrão é um risco que nenhum de nós se devia dar ao luxo de correr.
Os sistemas de navegação para pesados são a nossa primeira linha de defesa. Permitem-nos meter lá os dados vitais do nosso conjunto: a altura total, a largura, o comprimento, o peso bruto e a carga por cada eixo. Com esta informação, o aparelho faz o trabalho dele e desenha uma rota que, em teoria, evita as pontes mais traiçoeiras, os viadutos com limites de tonelagem e as ruelas onde nem uma bicicleta passa à vontade.
Contudo, a tecnologia só funciona se for tratada com o devido respeito. E isso significa mantê-la atualizada. Um mapa desatualizado não vai saber daquela nova rotunda com restrição que a autarquia inaugurou na semana passada. É nossa responsabilidade garantir que as atualizações, tanto do software como dos mapas, são feitas. Pensem nisto como verificar o óleo e a pressão dos pneus: é básico para a máquina não nos deixar na mão. Além disso, ter um bom guia de estradas em papel na cabina não é ser antiquado, é ser precavido. O ecrã pode pifar, o satélite pode falhar, mas o papel está sempre lá, pronto a dar-nos uma visão geral e a ajudar-nos a tomar uma decisão inteligente em vez de uma decisão desesperada.
Confiar, mas desconfiar sempre
Acreditar cegamente no que o ecrã nos diz é um erro de principiante. O melhor GPS do mundo pode não ter a informação sobre uma obra de última hora que cortou uma nacional ou sobre uma nova Zona de Emissões Reduzidas (ZER) que uma câmara municipal decidiu implementar. É aqui que entra a nossa experiência e o bom senso.
Antes de arrancar para uma rota que não conhecemos de cor, vale a pena perder dez minutos a fazer uma pesquisa rápida. Os portais das concessionárias de autoestradas, como a Brisa ou a Ascendi, e o site do IMT são fontes de ouro para saber de condicionamentos de trânsito. Para as regras locais, os sites das câmaras municipais são o sítio certo para verificar as Zonas de Emissões Reduzidas, incluindo os horários de circulação e as normas Euro que o nosso camião tem de cumprir para poder entrar. Saber a norma Euro da nossa máquina é tão importante como saber a sua altura. Ignorar isto pode dar direito a multas pesadas e à humilhação de ter o veículo imobilizado. Lembrem-se do ditado: o GPS sugere, mas quem decide é o condutor, com toda a informação que conseguiu juntar.
Ter sempre uma alternativa na manga
O alcatrão é imprevisível. Um acidente pode fechar a A1 durante horas, uma derrocada pode levar um bocado daquela estrada de serra que costumamos fazer. O que fazemos quando o nosso plano A, tão bem desenhado, vai por água abaixo? É por isso que um bom planeamento já conta com os imprevistos.
Ao estudar a rota principal, identifiquem logo as alternativas possíveis. Mas cuidado: uma alternativa para um ligeiro pode ser o nosso pior pesadelo. Aquele desvio simpático que o Google Maps sugere pode levar-nos por uma estrada agrícola com uma ponte romana que mal aguenta o peso da nossa marmita, quanto mais as toneladas do bruto. Ao traçar o plano B, e até o C, usem os mesmos critérios do plano A: verifiquem as restrições de altura, peso e largura. Identifiquem parques de serviço ou áreas de repouso seguras ao longo dessas rotas secundárias. Ter estas opções estudadas de antemão permite-nos tomar uma decisão rápida e segura quando o azar bate à porta, em vez de ficarmos parados na berma, em pânico, a tentar encontrar uma saída.
Dica do Estradeiro: Quando encontrares um sinal de restrição que não estava nos teus planos (uma altura mais baixa, um limite de peso novo), para em segurança e tira uma foto com o telemóvel. Envia logo para o teu gestor de tráfego. Uma imagem vale mais que mil palavras e serve de prova se mais tarde houver chatices com horários ou quilómetros extra.
Nós somos os olhos e os ouvidos da empresa na estrada. A comunicação com o escritório é uma via de dois sentidos que nos protege a todos. Se, durante o planeamento ou já na viagem, detetarem que algo não bate certo – um sinal de proibição que o GPS não viu, um limite de peso mais apertado do que o esperado – peguem no telefone e avisem logo a base. Isto não é sinal de indecisão, é prova de profissionalismo. Permite que a empresa saiba do problema, autorize um desvio seguro e, se for preciso, avise o cliente de um possível atraso. Manter a base informada também ajuda a empresa a atualizar os seus sistemas, evitando que outro colega caia na mesma esparrela.
Este trabalho de casa antes de arrancar não é tempo perdido. É um investimento na nossa segurança, na nossa paz de espírito e na nossa reputação como profissionais.
E vocês, que manhas é que usam para planear as vossas rotas e evitar estas dores de cabeça? Partilhem aí nos comentários as vossas dicas e histórias. Força aí no alcatrão e boas curvas
