Boas, companheiros do alcatrão.
Todos nós já sentimos aquele arrepio na espinha. Vais tranquilo na tua faixa, a cumprir o teu horário, e de repente, à tua frente, o caos. Chapa a dobrar, vidros a estilhaçar, um carro que entra em pião. Um acidente. O coração dispara, eu sei. A primeira reação é instintiva, mas para nós, profissionais da estrada, o instinto tem de ser treinado. Não somos meros espectadores; somos, muitas vezes, a primeira linha de defesa e a maior ajuda que aquelas pessoas vão ter nos minutos seguintes. Saber o que fazer, e o que não fazer, pode ser a diferença entre uma tragédia e um susto controlado.
O Primeiro Instante: Manter a Calma e Avaliar
Antes de te armares em herói, a tua primeira obrigação é não te tornares mais uma vítima. Viste o acidente a acontecer? Não traves a fundo de repente. Olha pelos espelhos. Há alguém colado à tua traseira? A tua travagem brusca pode causar um segundo acidente. Reduz a velocidade de forma controlada e segura.
Liga imediatamente os quatro piscas. A tua missão inicial é criar uma bolha de segurança à tua volta e sinalizar para todos os outros que algo de errado se passa mais à frente. Avalia a cena à distância: há fogo? Há pessoas a sair dos carros e a vaguear pela estrada? Há algum veículo pesado envolvido que possa transportar matérias perigosas? Esta avaliação rápida, de poucos segundos, vai ditar os teus próximos passos. Se for seguro parar, encosta o camião na berma, idealmente uns bons 50 a 100 metros antes do local do sinistro. Se não for seguro, o melhor que podes fazer é seguir viagem e ligar para o 112 assim que possível, fornecendo a localização exata.
A Regra dos Três Cês: Proteger, Alertar, Socorrer
Este é o mantra que deves ter gravado na cabeça. A ordem é esta e não pode ser alterada.
1. Proteger: A tua segurança e a proteção do local são a prioridade absoluta. Antes de saíres da cabine, veste o colete retrorrefletor. É lei, mas mais do que isso, é bom senso. À noite, ou com pouca visibilidade, és invisível sem ele. Depois, coloca o triângulo de pré-sinalização. A lei diz a 30 metros, mas numa autoestrada, onde os carros vêm a 120 km/h, isso é pouco. Se as condições o permitirem, caminha pela berma e coloca-o a pelo menos 100 metros do teu camião, para dar tempo de reação a quem vem atrás. O teu próprio camião, com os quatro piscas ligados, já é um excelente elemento de proteção e sinalização. Estacioná-lo antes do acidente cria uma barreira física que protege toda a cena.
2. Alertar: Pega no telemóvel e liga para o 112. Mantém a calma e sê o mais preciso possível. Os operadores de emergência precisam de informação clara, não de pânico. Diz-lhes:
* Localização exata: Autoestrada (A1, A2, etc.), quilómetro e sentido (Norte-Sul, Lisboa-Porto). Os postes de quilometragem são os teus melhores amigos.
* O que aconteceu: Despiste, colisão entre dois ligeiros, colisão com um pesado, etc.
* Número e tipo de veículos envolvidos.
* Número aparente de vítimas: "Vejo uma pessoa dentro de um carro, parece estar inconsciente", "Há duas pessoas fora do veículo, uma delas a sangrar".
* Perigos especiais: "Há fumo a sair do motor de um carro", "O carro está capotado no meio da faixa", "Há um derrame de líquido na estrada".
Não desligues a chamada até o operador te dizer para o fazeres.
3. Socorrer: Aqui é onde a boa intenção pode causar mais estragos. Lembra-te: não és médico nem enfermeiro (a não ser que o sejas, claro). O teu papel é prestar os primeiros socorros básicos e, acima de tudo, não agravar as lesões.
* NÃO MOVAS AS VÍTIMAS: A não ser que haja um perigo iminente e absoluto, como um incêndio no veículo. Mover alguém com uma lesão na coluna pode deixá-lo paralisado para o resto da vida.
* Verifica o estado de consciência: Aproxima-te, fala com a vítima. "Está a ouvir-me? Sabe onde está?". Se estiver consciente, tenta mantê-la calma. Diz-lhe que a ajuda já vem a caminho.
* Controla hemorragias: Se vires uma hemorragia ativa, usa panos limpos (do teu kit de primeiros socorros) para fazer pressão direta sobre a ferida.
* Não dês água nem comida.
* Se a vítima estiver inconsciente mas a respirar, deixa-a na posição em que a encontraste (a menos que esteja de barriga para baixo, dificultando a respiração). Tenta manter as vias aéreas desobstruídas, com cuidado.
* Cobre as vítimas com um cobertor ou um casaco. Manter a temperatura corporal é fundamental, mesmo no verão.
A Dica do Estradeiro: Mais Vale Prevenir
O kit de primeiros socorros obrigatório é o mínimo dos mínimos. Investe num kit mais completo. Adiciona ligaduras extra, compressas de vários tamanhos, uma manta térmica (não ocupa espaço e é incrivelmente útil), luvas descartáveis extra e uma tesoura de pontas rombas para cortar cintos de segurança ou roupa. Tem também um extintor em bom estado e de fácil acesso, não arrumado debaixo de uma montanha de tralha. Uma lanterna potente, mesmo durante o dia, pode ser essencial para ver o interior de um veículo acidentado. Estes pequenos extras podem fazer uma enorme diferença.
Ser profissional na estrada vai muito para além de entregar a carga a tempo e horas. É ter a consciência de que partilhamos este espaço com milhares de outras pessoas e que, num momento de crise, a nossa calma, o nosso conhecimento e o tamanho do nosso "bicho" podem ser os melhores aliados de quem precisa.
E vocês, parceiros? Já passaram por uma situação destas? Que outras dicas dariam a um colega que se veja na mesma posição? Partilhem as vossas experiências e conselhos nos comentários. A estrada ensina-nos a todos.
Boas viagens e, acima de tudo, viagens seguras.
