Boas, parceiros da estrada!
Quantos de nós já não sentiram aquele arrepio na espinha só de pensar no som de um pneu a rebentar a 90 km/h, com 40 toneladas atrás de nós? É um dos maiores pesadelos de qualquer profissional ao volante de um pesado. Não é uma questão de se vai acontecer, mas de quando. E quando esse momento chegar, o pânico é o nosso pior inimigo. A diferença entre um grande susto e uma tragédia está, muitas vezes, nos primeiros cinco segundos e na forma como reagimos. Por isso, vamos falar disto à moda antiga: de colega para colega, sem floreados, sobre o que fazer quando o chão parece fugir debaixo de nós.
Os Primeiros Segundos São de Ouro
Ouve-se um estrondo violento, seguido de uma vibração que abana a cabine inteira. O camião guina de repente para um dos lados. A primeira reação, quase instintiva, é a pior de todas: travar a fundo. Esqueçam isso. Travar bruscamente com um pneu rebentado é a receita para o desastre, especialmente se for um pneu da frente. O desequilíbrio de forças vai fazer com que o veículo perca a trajetória de forma violenta, podendo levar ao efeito tesoura ou mesmo a um capotamento.
Então, o que fazer? Mãos no volante, bem firmes, com as duas mãos. O camião vai puxar com muita força para o lado do pneu que rebentou. A nossa missão é contrariar essa força. Não é lutar contra o volante de forma agressiva, mas sim aplicar uma força constante e firme na direção oposta para manter o pesado o mais a direito possível. Ao mesmo tempo, tiramos o pé do acelerador suavemente. Não é preciso desligar o motor nem pôr em ponto morto. Apenas deixar de acelerar. A resistência ao rolamento do pneu rebentado vai ajudar a abrandar o conjunto de forma natural e controlada.
Identificar o Inimigo e Manter o Rumo
Enquanto lutamos para manter o controlo, é importante perceber qual foi o pneu que cedeu. Um rebentamento à frente é muito mais violento e difícil de controlar. A direção fica incrivelmente pesada e a tendência para sair da faixa de rodagem é imediata e forte. Se o rebentamento for num dos eixos traseiros do trator ou no reboque, a sensação é mais de uma vibração intensa e de um arrastar, como se tivéssemos engatado uma âncora. O perigo aqui é o reboque começar a oscilar e a querer ultrapassar-nos.
Em qualquer um dos cenários, a regra de ouro mantém-se: movimentos suaves. Nada de guinadas bruscas no volante ou de bombear os travões. O nosso objetivo é estabilizar a fera antes de pensar em encostar. A velocidade vai diminuindo gradualmente. Só quando sentirmos que o camião está a uma velocidade mais baixa e controlada, talvez abaixo dos 40 ou 50 km/h, é que podemos começar a pensar em usar o travão de serviço, mas sempre de forma muito progressiva e leve.
A Manobra Segura Para a Berma
Com o veículo estabilizado e a velocidade a diminuir, é hora de sair da faixa de rodagem. A primeira coisa a fazer é ligar os quatro piscas. É o sinal universal de que estamos em apuros e alerta os outros condutores para manterem distância. De seguida, olhamos pelos espelhos. Precisamos de ter a certeza de que temos espaço para nos desviarmos para a berma sem cortar a frente a ninguém.
A manobra para a berma deve ser lenta e deliberada. Indicamos a nossa intenção com o pisca para a direita e vamos guiando o camião suavemente para fora da via. O ideal é procurar um local seguro para parar. Evitem curvas, topos de subidas, túneis ou viadutos. O melhor é uma reta longa com boa visibilidade. Se houver um recanto de emergência a poucos metros, é o nosso porto de abrigo. Ao chegar à berma, tentamos imobilizar o veículo o mais à direita possível, deixando o máximo de espaço entre o camião e a faixa de rodagem.
Paragem Total e Segurança na Berma
Assim que o camião estiver completamente imobilizado na berma, o perigo ainda não passou. A berma da autoestrada é um dos locais mais perigosos que existem. Puxamos o travão de parque e desligamos o motor. Antes mesmo de abrir a porta, vestimos o colete retrorrefletor. É lei, mas acima de tudo, é bom senso.
Saímos da cabine, sempre com a máxima atenção ao trânsito, e de preferência pelo lado do passageiro, longe dos carros que passam a alta velocidade. A seguir, vamos buscar o triângulo de pré-sinalização. A lei diz que deve ser colocado a, no mínimo, 30 metros da traseira do veículo e visível a 100 metros. Na autoestrada, a minha dica de estrada é: abusem da distância. Se puderem, caminhem 100 ou 150 passos. Quanto mais cedo os outros condutores virem o sinal, mais tempo têm para reagir.
Depois de sinalizar o perigo, o nosso trabalho ao volante terminou. Afastamo-nos do camião e esperamos pela assistência atrás dos rails de proteção. Nunca fiquem entre o camião e o rail, nem dentro da cabine. A seguir, é ligar para a assistência em viagem da empresa ou para a concessionária da autoestrada e esperar pacientemente pelo socorro.
E vocês, malta? Já passaram por um susto destes ou conhecem quem tenha passado? Partilhem as vossas histórias e dicas nos comentários. A experiência de um pode ser a salvação de outro na estrada.
Boas estradas e cuidado aí.
