Caros estradeiros, um grande abraço a todos que dão o litro no alcatrão. A gente sabe como é: a viagem pode ser longa, mas muitas vezes o verdadeiro perigo não está na autoestrada, mas sim naqueles trinta minutos ou naquela hora que passamos parados no cais de um armazém. A carga e descarga é uma rotina tão batida que o cérebro quase entra em piloto automático. E é aí que a desgraça acontece. Quantos de nós já não viram um colega mancar para o resto da vida, ou pior, por um descuido que podia ter sido evitado? Este artigo não é para ensinar o Pai Nosso ao vigário, mas para nos lembrarmos uns aos outros que a nossa ferramenta mais valiosa não é o camião, mas sim o nosso corpo. E esse, quando se estraga, não tem peças de substituição fáceis.
Antes de Sair da Cabine
A segurança começa antes mesmo de o pé tocar no chão do parque. Chegaste ao local, encostaste o camião ao cais. Perfeito. Agora, respira fundo e segue uma sequência sagrada. Primeiro: travão de mão bem puxado. Não confies só no ar. Se o piso tiver a mínima inclinação, ou mesmo que não tenha, usa os calços nas rodas. Leva dois minutos e pode salvar-te a vida ou evitar que o teu semi-reboque decida passear sozinho pelo parque. Segundo: desliga o motor e, mais importante, tira a chave da ignição e leva-a contigo. Já houve demasiadas histórias de alguém na empresa que, por engano, liga o motor e move o camião enquanto estamos lá atrás. Terceiro: antes de saíres, veste o equipamento. Colete refletor, sempre. Botas de biqueira de aço, sem desculpas. Luvas, se fores manusear qualquer coisa. Parecem pormenores, mas um palete que cai em cima de uns ténis ou uma mão que resvala numa cinta em tensão têm resultados muito diferentes se estivermos protegidos.
Olho no Empilhador, Pé na Zona Segura
Os empilhadores são os reis silenciosos do armazém e uma das maiores causas de acidentes graves. O operador está focado na carga, muitas vezes com a visibilidade reduzida, e a sua prioridade é a rapidez. A nossa prioridade tem de ser a autopreservação. A regra de ouro é: assume sempre que o operador do empilhador não te viu. Antes de te aproximares da zona de trabalho, estabelece contacto visual. Um aceno de cabeça, um polegar para cima, qualquer coisa que confirme que ele sabe que estás ali. Define uma "zona segura" para ti, um local onde possas observar a operação sem estares no caminho do empilhador ou da carga suspensa. Nunca, mas nunca, andes de costas na área de manobra. E, por favor, larga o telemóvel. Uma distração de dois segundos a ver uma mensagem é o tempo que um empilhador leva a esmagar um pé ou a prender-te contra o reboque. O teu lugar é fora do "bailado" entre o cais e o camião.
A Carga Não Pede Desculpa
Seja a abrir as lonas ou as portas, o perigo está à espreita. A carga pode ter-se deslocado durante a viagem. Ao abrir as portas do reboque, nunca fiques diretamente atrás delas. Coloca-te de lado, usando a própria porta como um escudo. Abre uma de cada vez, com cuidado, e espreita para dentro antes de a abrires completamente. Uma palete mal acondicionada que tenha tombado contra a porta pode cair em cima de ti com uma força brutal. O mesmo se aplica às lonas de tejadilho ou laterais. Ao soltar as cintas, atenção à tensão. Uma cinta que chicoteia pode partir dentes ou causar ferimentos sérios na cara e nos braços. Usa o corpo de forma inteligente: posiciona-te de forma a que, se o roquete saltar, não te atinja. Se tiveres de ajudar no manuseamento manual de alguma mercadoria, lembra-te do básico que aprendemos e que tantas vezes esquecemos: dobra os joelhos, mantém as costas direitas. Levanta o peso com a força das pernas, não das costas. Uma hérnia discal é uma companheira de viagem que ninguém quer.
Uma dica de estrada que já me safou de algumas: tenham sempre uma pequena lanterna LED potente no bolso. Mesmo de dia, o interior de um reboque pode ser escuro. Antes de dares o "ok" para começarem a descarregar, ou depois de carregarem, uma passagem rápida com a lanterna permite-te ver se há alguma cinta solta, carga tombada no fundo ou danos na estrutura que não seriam visíveis à primeira vista.
A Pressa Mata Mais do que a Sede
Todos conhecemos a pressão. O chefe do armazém quer despachar-nos, já temos outra carga à espera noutro lado, o tempo está a contar. É nesta pressa que se saltam os procedimentos, que se ignora o colete, que se atravessa à frente do empilhador "só desta vez". É preciso ter a frieza de dizer "calma". Mais vale perder dez minutos a fazer tudo como deve ser do que passar seis meses em casa a recuperar de um acidente, sem ganhar o nosso. A nossa saúde e a nossa capacidade de trabalhar no dia seguinte valem mais do que qualquer horário apertado. Se uma situação te parece perigosa – um piso escorregadio, um operador de empilhador a fazer manobras arriscadas, uma carga instável – fala. Reporta a quem de direito. Não tenhas medo de ser o "chato" da segurança. O "chato" é o que chega inteiro a casa no final do dia.
O nosso trabalho já é duro o suficiente sem lhe acrescentarmos riscos desnecessários. Cuidem-se, porque ninguém o fará por nós. E vocês, que sustos já apanharam ou que dicas de ouro têm para partilhar sobre segurança nas cargas e descargas? Deixem aí nos comentários, a experiência de um pode ser a lição que salva outro. Boas estradas e, acima de tudo, bons regressos a casa.
